|
Ficção Por: Adriano de Almeida Gominho adriano.gominho@sapo.pt e-book ADRIANO GOMINHO TIMOR - 1945 - 2005 PREFÁCIO O leitor, ao confrontar-se com as singelas páginas desta dramática ficção-aventura, ficará com dúvidas: ficção, aventura ou mesmo realidade? O autor, em 1963, entrou numa dessas grutas, usou gasolina dos bidons deixados na Ponta Leste da ilha de Timorpelos nipónicos, das muitas galerias abertas na rocha para a tropa invasora pelos timorenses escravos e logo abatidos, durante a segunda guerra mundial e viajou nas mesmas barcaças de desembarque, em 1963. Na escuridão mofa e opressora das frias paredes dessas grutas, por onde escorria água, inspirou-se, após ouvir relatos dos datos (chefes tradicionais), vivos naquela época [1963] , para escrever esta trágica página da História de Timor, cuja veracidade poderá ser questionada ou não, mas motivo para estudo e reflexão, para se compreender o passado trágico dessa martirizada ilha, abandonada pelos portugueses (Estado Novo, depois pelo 25/4/1974) e pelo Mundo Todo ao seu Destino - TIMOR - esse primeiro país independente do Século XXI, onde estará enterrado, algures, quiçá para sempre, o Tesouro de Singapura? Curvo-me perante a memória aos Massacrados de Timor... O autor: Adriano Gominho Agosto de 2005 adriano.gominho@sapo.pt Capítulo I [19 de Fevereiro de 1942] Os vasos de guerra nipónicos Ymamoto e Yashikaba, após despejarem a metralha da boca dos muitos canhões sobre a radiosa cidade de Díli, iluminada pelos primeiros clarões do raiar do Sol desse trágico dia, podia-se dizer, para desespero de todos, que a guerra chegara, finalmente, à pacífica ilha de Timor. Ao mesmo tempo que os soldados desembarcavam nas lanchas especiais , os ditos vasos de guerra postaram-se entre as ilhas de Ataúro e de Timor, a poucas milhas de distância. Ao aviões, zumbindo no ar, despejavam metralha e bombas de várias libras sobre a cidade que explodiam deixando as casas e casebres dos arredores envoltos em chama, fumo negro ou jactos de água quando elas atingiam os pântanos que circundavam a cidade. Lemos, um funcionário dos CTT de Díli, funcionário pobre e pacato, que vivia no Bairro Árabe dos arredores da capital, nesse dia de Fevereiro, como era habitual, acordara cedo para dar de comer ao gado ainda no curral e soltar as cabras antes que o Sol começasse a fustigar a estrada de terra batida que teria de percorrer desde a ribeira do Comoro até o centro da cidade, onde se situavam os serviços. Acabara de lavar a cara num lavatório de ferro ferrugento por debaixo de uma jaqueira do quintal com água que retirada de um canudo de bambu encostado a uma papaeira do quintal, quando foi surpeendido pelo ensurdecedor ruído dos aviões voando baixo e largando tropas para-quedistas, na ribeira de Comoro, enquanto as bombas arrancavam, com as explosões, cocos dos altos coqueiros vizinhos e lascas de pedra nas rochas. Largou a toalha que trazia para se enxugar, e atirou-se para uma vala por onde escorria o esgoto da povoação e as rãs coaxam de desespero ou medo. A planície era iluminada pelo Sol nascente e pelo estampido das bombas que faziam tremer o chão. - Chegara a guerra! - pensava ele - sentindo a água do regato escorrendo por entre as fragas e o suor gotejando da sua testa latejante de pavor. Ouvira o telegrafista Martinho dizer que, na noite anterior escutara, em código Morse, alguns diálogos entre vasos de guerra navegando no Canal de Ataúro. Sabia que os japoneses vitoriosos no Pacífico tinham tomado Singapura e desembarcado nas Filipinas, matando, roubando e saqueando tudo. Tinham intenções de desembarcar em Timor. Não lhe interessava agora saber se o telegrafista Marinho tinha ou não razão, se se tratava de japoneses ou de australianos, mas o certo é que a cidade e Díli estava a ser bombardeada e incendiada por terra, mar e ar. Nuvens de fumo rolavam do casario em direcção ao Seminário de Dare, edifício atingido com a artilharia naval por ser alvo fácil num morro sobranceiro à cidade. Foi da vala de irrigação de neli, ao lado dos búfalos enlameados e assustados com os estrondos, que o modesto funcionário dos Correios assistia, impotente e apavorado, à invasão da sua cidade, que acabara de acordar havia pouco, ao som das bombas largadas de aviões e explosões das granadas de artilharia dos pesados canhões dos cinzentos vasos de guerra, ao largo da ilha de Ataúro. Nessa manhã, não havia tempo para ouvir o coaxar das rãs nos pântanos da ribeira de Comoro, nem o cantar dos loricos na mata. Era tempo de largar e fugir. Era a guerra... Aproveitando uma pequena folga nos bombardeamentos que faziam estremecer as várzeas, Lemos saiu do seu abrigo, trepou mais alto que podia num pé de arequeira e foi prescrutar o horizonte sombrio desse terrível dia em Díli. O que vira: ao longe, os vasos de guerra nipónicos tinham rumado para a Ponta Leste da ilha, deixando uma esteira de branca espuma, que se ia desvanecendo no horizonte azul do canal de Ataúro. Muitas lanchas de desembarque estavam varadas na areia , junto à estrada marginal, não muito longe de uma árvore lúlic do porto de Díli, onde, soldados, armados de Mausers e metralhadores pesadas, as guardavam. As chamas e o fumo elevavam-se no ar morno daquela manhã de Fevereiro, numa cidade despovoada, pois os seus habitantes tinham fugido para as montanhas vizinhas. Muitos, com os poucos haveres recolhidos, abandonaram as suas casas e palapas e treparam para Dare, pelas matas de Comoro para se abrigarem dos invasores amarelos, pequeninos e de má cara. Teria o telegrafista escapado dos bombardeamentos ? - era a questão que verrumava a cabeça de Lemos - pois via muito fumo lá para os lados da sua casa, em China Rate onde várias bombas tinham caído ao mesmo tempo. Foi espreitar o local e encontrou apenas duas paredes calcinadas em pé e até a velha mangueira do quintal estava quebrada e despida de folhas queimadas pela explosão.Nem os ferros do alpendre, grossas vigas trazidas de Liquiçá conseguiram resistir às bombas. Uma delas estava enterrada junto às bananeiras do quintal e com as alhetas ainda à vista. Certamente o amigo teria ficado debaixo dos destroços fumegantes mas não se aventurou a investigar, sujeito a levar uma bala inimiga. Das casas brancas de Díli só ficara de pé uma, lá para os lados da SOTA. A noite desse fatídico 19 de Fevereiro chegara logo que o Sol dobrou a linha do horizonte, deixando o mar pintalgado de amarelo e vermelho de sangue, prenúncio de algo ainda pior que estava por acontecer à ilha mártir de Timor. Na sua mente desfilava a Trágica História da ilha, escrita com sangue e dor em momentos anteriores, tais como a revolta de Manufai de 1912, comandada pelo liurai D. Boaventura. Lemos, sempre escondendo-se da tropa inimiga, foi galgando as montanhas sobranceiras a Díli ate se integrar no grupo de fugitivos, acoitados sob a protecção dos altos palavões e íngremes ravinas, que, por carreiros secretos, os conduziam aos abrigos que conheciam nas nascentes da ribeira de Comoro. Do alto, espreitava a cidade sem iluminação, ouvindo-se ainda alguns estampidos de armas de fogo do inimigo à cata de fugitivos ou alguma resistência organizada, coisa de pouca monta. O farol da baía, indiferente à guerra, faiscava intermitentemente, indicando à frotas inimiga dos perigos dos bancos de coral, à entrada do porto. Os beiros já não saíam para a faina de pesca ao largo ou em Liquiçá, pelo que a fome seria inevitável para os poucos que não tiveram tempo para fugir, agora encurraldos entre a tropa nipónia e o mar de coral rico em peixe. - Triste sina para a ilha dos crocodilos - lamentava Lemos - agora sem casa, sem emprego e sem rumo, num mato cerrado, fugindo, fugindo sempre pela ribeira de Comoro acima, ao som dos tiros e explosões de bombas assassinas. CAPITULO II Dia 22 de Fevereiro de 1942 O dia nascera cinzento. Um manto de brancas nuvens, quais flocos de algodão, incendiadas pelo Sol saído do mar, pairava sobre a ilha de Ataúro, verdadeira sentinela de pedra do canal, ao lado da ilha das Flores à esquerda, postadas frente à bombardeada Díli. Os galos trepavam para o cimo das palapas escurecidas pela humidade do alto da montanha, donde saíam fios de fumo que se misturavam com o nevoeiro da manhã. No porto, lá em baixo, os vasos de guerra expeliam cinzento fumo dos canudos da casa das máquinas confundindo tudo: mar, barcos e as ilhas. Lemos tinha acabado de lavar a cara e espreguiçar de uma noitada mal dormida numa esteira de bambú tecido, quando viu um clarão partir da bocarra das peças dos vasos de guerra, talvez atraídos pelo fumos das palapas. Poucos segundos após, uma violenta explosão da granada de artilharia fazia voar o monte, despedaçando rochas arequeiras e búfalos ainda nos currais de paus. Mais uma vez a desgraça tinha chegado a Timor. Certamente a lenda de S. Francisco Xavier, o apóstolo das Índias, que por ela passara e rogara uma praga, por ter sido recebido nas praias à pedrada pelos infiéis, o que fez com o santo, após fugir para a caravela, sem antes ter sacudido as chinelas para as limpar da areia de Timor, afirmasse: "Esta ilha fica amaldiçoada e fomes e guerras virão..." Lenda ou realidade", o que agora interessava a Lemos era fugir e o caminho estava perigoso pela chuva caída na noite anterior. Capim cortante, mosquitos, pernas fracas e o medo de ser apanhado pelas tropas japonesas que eram implacáveis nas torturas, para extorquir informações dos resistentes sobr e a tropa australiana e a inexistente tropa de Portugal. Lemos passara por uma povoação chamada Seloi e disfarçou-se de feto e retirou do mato algumas bananas, uma jaca e várias papaias para se fingir de vendedora de frutas no bazar. Já quase a alcançar a Ribeira de Comoro, foi surpreendida por uma patrulha nipónica. Apanhada, amarrada e com sorte de não ter sido abatida, foi arrastada para junto de um superior que falava inglês e entendia o dialecto da zona "tétum". Depois de beber água de coco, questionou a feto: - Para onde ias fugir? - Fugir, não! Vou ao Bazar de Liquiçá vender alguma coisa da horta... - Mas como, se a cidade está deserta, sem viva alma, sem bazar! Onde está a gente a dcidade - foi a pergunta insistente do comandante. E os soldados australianos? E os portugueses brancos desta ilha? Como te chamas? Lemos, agora disfarçada de vendedeira de bazar. Disse chamar-se Bia Cura, da povoação de Taci Tolo e informou aos nipónicos que as populações tinham fugido para as montanhas com medo deles e não havia tropa portuguesa na zona, só alguma em Maubisse e Aileu, a muitos quilómetros, no interior da ilha...O comandante do pelotão nipónico disse chamar-se de Yoko e que estavam na ilha para bem dos timorenses, para os proteger dos australianos. Informou que Díli tinha sido bombardeada com o intuito de desalojar de lá as tropas australianas, desembarcadas havia algum tempo, com autorização do Governo da colónia e apoio de Oliveira Salazar, amigo dos países do Eixo, a que Japão aderira. Yoko disse ainda que precisava de guia local experimentado que conhecesse os carreiros da região e pudesse infiltrar nas hostes inimigas dos australianos e trazer informações preciosas. Yoko disse à Bia Cura que pagava bem as informações válidas. Chamou o cabo Myoto e ordenou-lhe que desse à espia cinco pacotes de bolacha, cinco quilos de arróz branco, seis latas de conserva de peixe da marca Shizuoka, chá de Ceilão e uma credencial por ele assinada para se identificar, caso fosse interceptada pela tropa nipónica. O nome de código seria OKYHAMA, que devia decorar e não revelar à tropa portuguesa ou australiana, caso contrário, seria fuzilada sem perda de tempo. Era um sério aviso e os nipónicos não eram para brincadeiras nem falinhas mansas. À despedida, Bia Cura, de cesto na cabeça e bastante carregada com a mercadoria para o bazar e fornecimento militar do rancho nipónico, garantira a Yoko que iria às povoações recrutar mais espias junto dos datos e mesmo entre timorenses descontentes com o regime colonial de Salazar, pessoas que quizessem ser remuneradas com géneros alimentícios que faltavam ou pagamento em libras ouro, de preferência [as de cavalinho] que tinham mais valor na ilha ou mesmo patacas mexicanas cuja prata era usada para artesanato. Bia Cura resolveu oferecer as frutas que ia vender no bazar aos nipónicos que olharam para elas com certa desconfiança por serem desconhecidas no país do Sol Nascente. Depois regressou à povoação de Comoro nas montanhas de Timor, para dar a boa nova que os japoneses não estavam em Timor para os matar mas sim para os defender dos australianos e dar-lhes muito progresso e comida, enfim, libertá-los dos opressores colonialistas portugueses e deportados políticos que vieram, esses sim, ocupar as terras de produção do café e do arroz. A partir desse dia, Lemos, ou aliás Bia Cura, virou agente-espia das tropas invasoras e começou a esquematizar uma forma de suscitar a revolta contra a ocupação portuguesa que vinha de séculos atrás e recrutar mercenários para as famigeradas e temidas Colunas Negras [CN], que viriam num futuro próximo espalhar morte e desolação ao martirizado povo timorense. Capítulo III Dia 27 de Fevereiro de 1942 Nesse dia, Lemos partira para a aldeia de Be Aço, em Viqueque, ponta leste da ilha, para aí trocar impressões com o seu tio Mau Loe, catuas de avançada idade e muito respeitado na povoação. Era um homem considerado rico na terra, pois além de várzeas de arroz em Bai-Dubo, possuia manadas de búfalos que alugava para as fainas de preparação dos canteiros para as sementeiras do néli. Também era fabricantte clandestino de tuassaba, bebida cuja manufactura era proíbida pelas autoridades portuguesas de então. Constava que Mau Loe tinha uma arca cheia de luas de oiro e patacas mexicanas aos montes e não gostava dos colonialistas portugueses que obrigavam o seu povo a pagar muitos impostos e não permitia que ele explorassem alguns escravos que tinha no seu reino. Era admirador do liurai D. Boaventura, o tal que, em 1912, chefiara a revolução contra o domínio português e que ficara conhecida por Revolta de Manufai. Mau Loe contava com orgulho nos olhos, enquanto fumegava no seu cachimbo de raíz de cafeeiro, que, segundo o avô Mau Cura, em 1887, também aconteceram levantamentos em Timor, tendo sido assassinado o então governador Alfredo Lacerda Maia, revolta essa que acabou sufocada por europeus, goeses e tropas moçambicanas enviadas para a ilha para esse fim. Assim que o sobrinho Lemos lhe contou o encontro havido dias antes com os japoneses, Mau Loe achou que chegara, finalmente, a hora de se vingar dos colonialistas e vir a ser um outro D. Boaventura, com a preciosa ajuda do exército invasor japonês que agora dominava a ilha. A povoação onde vivia o dato ficava no sopé da cordilheira de Matan Bia, numa fértil região de várzeas de néli e onde pastavam em liberdade e abundância os búfalos da sua manada, calculada em mais de quatrocentas cabeças - sinal de homem muito rico e respeitado na Ponta Leste da ilha. O seu poder era ainda acrescido pelo facto de ser descendente do afamado matandoc Mau Duac, cujos feitiços fatais eram conhecidos em toda a zona de Uato-Carbau e Uato-Lari. Lemos foi bem recebido na povoação e obsequiado com um bom jantar de arroz cozido em bambu e sassati de veado bem regado com tuaca das palmeiras do dato. Após uma reunião com outros chefes, às escondidas das autoridades ainda reinantes, e ouvidos os mais catuas chegou-se à conclusão que o Lemos podia dar início à formação da lista secreta de interessados em pertencer às colunas negras, pois não só livravam-se dos colonialistas como também podiam tirar algum proveito, arrecadando algumas libras de ouro de cavalinho. Um caderno de linhas ficara quase preenchido apenas com algumas folhas por preencher. Nessa noite, havia festa de descasque do néli, operação que consistia em dançar toda a noite sobre os molhes ainda com as espigas agarradas, até os grãos ficarem soltos da palha seca que a brisa da tarde se encarregava de espalhar para longe. O Sol escondera-se no mar do Sul, por entre as largas folhas das palmeiras e árvores de teca, lançando um manto amarelado que contrastava com a sombra do Mundo Perdido sobre as verdes várzeas e canteiros já ceifados, quadrados pintalgados de alvas garças, pousadas nos lombos cinzentos dos muitos pachorrentos búfalos. A água cantava nas valas de irrigação onde os garotos iam pescar os camarões ao cair de cada tarde. Lemos (a espia, a soldo dos nipónicos) fez ver ao tio que ajuda dos japoneses era generosa e a melhor forma de se libertarem dos opressores exploradores do sândalo, café, e de outras madeiras e riquezas de Timor. Citava um caso, ouvido recentemente em Díli, de um chefe de posto que obrigava os contribuintes a fazer várzeas e as colheitas vendidas aos chinas, ficando com o dinheiro das vendas que era dos agricultores da zona. Esses usurpadores tinham os dias contados e seriam denunciados aos nipónicos como informadores e certamente fuzilados sem julgamento. Lemos exibiu uma credencial assinada pelo comandante Yoko e o dato ficou admirado com o carimbo japonês estampado no papel já meio amarfanhado e dobrado em quatro. Assim que os chefes revoltosos da zona souberam da lista vieram inscrever-se nela e já ia nos cento e cinquenta nomes. Todos queriam ganhar libras cavalinho do invasor e servir a causa de Timor - expulsar - quanto antes, os colonialistas - no dizer de Lemos. O angariador dissera que tinha de continuar o seu recrutamento secreto e que, na manhã seguinte, iria de cuda a Uato-Carbau e Uato-Lari contratar mais voluntários, onde contava com os nomes de dois importantes datos demitidos pelo administrador Pião. Havia queixas e sede de vingança. Lemos seguiu pelo estrada de Béaço, junto ao mar, sempre maquinando no plano que engendrara e cujos contornos esperava apresentar ao comandante Yoko, pedindo armas e cartuchos, pois não era com azagaias, setas, catanas ou lanças que iam combater, embora essas armas artesanais dessem alguma ajuda em certas circunstâncias, caso de combate no silencioso no mato. Em Uato Carbau conseguiu recrutar meia centena de voluntários aos quais se juntaram ex-condenados por homicídio, até agora a monte, e alguns javaneses também fugidos das cadeias holandesas, do outro lado da ilha de Timor. Um dos voluntários o Bau Loe servira como capataz numa serração de madeiras de um deportado político enviado para a ilha por Salazar depois de 1926, após o 28 de Maio em Portugal. A espia, já de regresso a Díli, foi mostrar o trabalho a Yoko, já impaciente com o seu desaparecimento, que tinha dado ordens ao efectivo militar de Baucau que localizasse o paradeiro com urgência total e a trouxessem, viva ou morta... - Então a tal lista? Deixa-me ver o papel, após tantos dias sem comunicação! Yoko colocou os óculos sobre o nariz e com dedo gorduroso começou a seguir as linhas com os nomes e a localidade de orgem dos voluntários recrutados para as Colunas Negras - Mau Quinta de Uato-lari... - Mau Loe de Uato-Lari... - Liu Yo de Uato-Carbau...Risca! -Yo Sing de Béaço... Não! Risca! Nomes china e pessoal não de confiança... - Precisamos, sim, de informadores da Costa Sul, Covalima, Centro da ilha: Bobonaro e Maliana e fronteira com outro Timor - o Holandês, Fohorém, Fatuclulic e Fatcmean - resmungava Yoko - com um mapa de Timor desenrolado sobre uma mesa que fora outrora de cozinha, pelo seu estado de conservação e gordura impregnada no tampo. É que nessa zona de fronteira vai encontrar muitos javaneses fugidos das cadeias holandesas e que actuam como ladrões de gado em de Fatclulic e Fohorém e, certamente, gostariam de ganhar algumas libras em ouro, libras cavalinho, a troco de uma informação. Vais nessa missão e, dentro de um mês, vens entregar-me a lista pronta. A espia partira de camioneta china para Bobonaro, Atsabe e Maliana, e passados dois dias, estava em Suai, uma pequena povoação na costa Sul , sede da circunscrição de Covalima que vivia da exploração da copra dos muitos coqueirais da quente planície, não distante Austrália mais de quinhentos quilómetros e onde as tropas australianas já tinham desembarcado e embrenhada na mata para a defesa dessa parte mais importante de Timor que poderia de servir de base para o lançamento de operações militares contra a cobiçada Austrália. - Quando voltares, daqui a um mês, falamos das armas e dos pagamentos em libras de cavalinho que já estão encomendadas. No entanto, vais levar umas cem libras que ainda cá tenho, para as primeiras despesas. -Sim, senhor comandante Yoko - despediu-se, o espião Lemos, ao antes, a espia Bia Cura. Capítulo IV 1 de Março de 1942 O informador apanhou uma camioneta china que ia para Díli com um carregamento de copra destinada à Sota e, enquanto a velha e fumegante viatura aos soluços ia galgando a estrada de terra batida no meio de infernal poeirada, foi conversando com um velho amigo, um enfermeiro de Fohorém, que ia a Díli levantar alguns medicamentos para o mês. O enfermeiro fora cabo maqueiro na tropa em Lahane e quando passou à disponibilidade concorreu para o quadro hospitalar de Timor . Após várias complicações, lá lhe arranjaram um lugar no posto de socorros de Fohorém, fronteira com o então Timor holandês, local ermo , verdadeiro degredo sem grades - como afirmava. Queixava-se dos colonialistas que tinham entregue a sua ilha aos invasores e até diziam que os japoneses tinham concentrado todas as autoridades portuguesas, incluindo o governador, na zona de Liquiçá. Já ninguém mandava na ilha de nem sabia se ia conseguir os medicamentos do Hospital de Díli. Lemos não perdeu tempo e, como funcionário dos CTT que fora antes, aproveitou a ocasião para malhar nos colonialistas portugueses e preconizar uma colaboração com a tropa japonesa invasora de que ele era representante junto do povo, exibindo o papel com a sineta da tropa nipónica. O enfermeiro desbobinou então a sua vida passada: nascera em Viqueque e depois de fazer a quarta classe foi para Seminário de Soibada onde estudara até ser enviado para Macau para cursar Seminário. Lá esteve até 1940, quando verificou que não tinha fé para aquela vida e então regressou à sua ilha natal para o serviço militar como cabo maqueiro. Felizmente, encontrou um tenente médico Benedito, ido de Lisboa, que lhe dera uma boa ajuda. Após a conversa disse ao Lemos que podia "botar o seu nome" na lista de revoltosos, ou melhor, de descontentes resistentes. A camioneta acabara de descer o Subão e o mar agora corria ao lado até à vila de Manatuto onde a viatura carregou mais alguns fardos de copra e cordas de peixe seco com destino ao bazar de Díli. Finalmente, a viatura chegou à capital ainda fumegante dos incêndios de Fevereiro passado. Lemos seguiu para o Bairro Árabe para ver a sua casa que abandonara mês antes quando fugira para fora do povoado. Estava fechada ou aliás abandonada, com as portas presas por cordas e os parcos haveres pilhados por vadios que faziam a vida de pilhagem, mesmo antes da chegada dos invasores. Na povoação, só havia casas desventradas, queimadas e nem os animais havia nos currais de pau. Díli era também desolador com as casas derrubadas, queimadas, saqueadas, árvores retorcidas e partidas, charcos imensos - crateras de bombas - cheias de água das chuvas, agora habitat de crocodilos vindos do mar, ali ao lado. No dia seguinte, Lemos, ou alías a espia Bia Cura foi ao quartel de Comoro encontrar-se com o comandante Kyoto relatando tudo o que ouvira e vira. Em Covalima havia muitos descontentes com o administrador que os obrigava a extrair petróleo dos poços de Matai, sem salários, onde os gases venenosos vindos das entranhas da terra os sufocavam até à morte, como acontecera a Mau Cura que foi tirado do poço já cadáver. O pai queria vingança e alistou-se. - Continua... Mandou encher um copo de tuassaba para a espia, ou aliás de saqué - aguardente de arroz do bom... Em Tilomar contactou alguns chefes rebeldes que juntaram os nomes à lista dos descontentes, foragidos da justiça holandesa. O chefe de Tilomar indicou a Lemos Fohorém, Fatuc Lulic e Fatuc Mean, postos mais próximos da fronteira com o Timor holandês, locais onde, semanalmente, os mercadores vinham vender no bazar garudas - estatuetas de Bali, cabritos, peixe seco, panos de tecelagem local, etc. Em Fatuc Lulic, havia um chefe de posto muito mau, alvo a ser abatido, na devida altura. Era esse local o mais indicado para os contactos com o outro lado da ilha sem levantar suspeitas por parte do colonizadores holandeses, uma fronteira extensa e sem muitos postos de vigilância. O informador foi parar ao bazar de Fatuc Lulic. Era domingo, dia do bazar semanal e sem grandes dificuldade, conseguiu misturar-se coma a população local no recinto de vendas sem dar nas vistas ou ser notado pelos sipaios sempre vigilantes. Teve oportunidade de apreciar as esculturais estátuas balinesas feitas em pau preto e comprar uma garuda (divindade balinesa), um pássaro mítico, para oferecer ao comandante Kyoto. Por debaixo da sombra de uma árvore lúlic, conversou com um grupo de javaneses, gente de cor mais escura que a dos timores, igualmente descontentes com os colonialistas holandeses mais severos ainda que os portugueses, mas ambos exploradores das riquezas das suas terras, sândalo, copra, café, minerais e pedras preciosas. Concordaram com a ideia de formar um grupo organizado (Coluna Negra) CN para, com auxílio da tropa japonesa, caída do céue darem caça e expulsar de vez da ilha os opressores de séculos. Bere Tali, um dato já de provecta idade, dissera a Lemos que podia contar com uma centena de cadastrados que estavam a monte na fronteira e dedicavam-se à caça e roubo do gado para vender na Maliana e Bobonaro. Agora, estavam prontos a colaborar com a tropa japonesa ainda que a troco simbólico de algumas libras de cavalinho. Ficariam a aguardar a convocatória para os treinos, através do dato Mau Loe, que recentemente fora deposto do seu cargo de dato e substituido por um labaric ainda imberbe, ofensa que nunca conseguira digerir e jurara vingança. Capítulo V 5 de Março de 1942 Num ambiente de guerrilha gerado pela tropa nipónica, Lemos, a espia, apanhara uma camioneta china que ia carregar café em Fatuc-Bessic, com a missão de verificar se havia na zona tropa australiana, pois no itinerário já tinham sido emboscados na ribeira da Gleno por um grupo de resistentes comandados por um tal Matias Madeira que espalhava terror nas hostes japonesas juntamente com um punhado de australianos devidamente treinados e equipados. Após o ataque no local da Gleno, que provocara várias baixas, o comandante Kyoto queria informações da zona onde as matas de café serviam de refúgio aos resistentes. Assim, Lemos, pelo caminho ingreme e perigoso lá foi subindo a encosta de Nuno Tali até alcançar a vila de Ermera, escondida nas matas e madre-del-cacau, árvore de sombra aos cafeeiros. Não obstante o ambiente de guerrilha, a vila tinha o seu bazar aos domingos e lojas chinas abertas onde os mercadores vinham entregar sacas de café e comprar petróleo, óleo, açucar e outros produtos de primeira necessidade. De Ermera seguiu para Hatolia sem ter conseguido alistar descontentes para as Colunas Negras. Entretanto, colhera informações sólidas do paradeiro do tal Matias Madeira, que vivia nas margens da ribeira da Gleno, numa plantação de café bem protegida com ninhos de metralhadora e sentinelas sempre vigilantes, dia e noite. Também constatou que os australianos eram poucos, pouco mais de uma Companhia de infantaria, cento e poucos soldados, espalhados pelas montanhas do interior da ilha em pequenos grupos de guerrilheiros (um cabo e cinco soldados) e que se movimentavam, diariamente, entre Ermera, Lete-Foho e Aileu, principalmente nas Lagoas de Seloi, onde a água os protegia de ataques de surpresa, sempre fora das estradas normais de acesso à zona. Já com a lista fechada e com as informações para fornecer ao comandante Kyoto, Lemos, ou a espia Bia Cura dirigira-se a Maubara, mais além da vila de Liquiçá, para mostrar o trabalho e receber as libras cavalinho, claro. Na vila de Liquiçá passou pelo campo de concentração onde as autoridades portuguesas estavam encurraladas, havia já alguns dias, incluindo o Governador da Ilha e um administrador de concelho V. S. - Até dava dó vê-los! Antigos governantes, representantes do Estado português, presos como cadastrados no seu próprio país - exclamava, ironicamente o dito Lemos... O Comandante Kyoto acabara de jantar e, sentado numa cadeira de lona, daquelas que os nativos chamavam de "cadeira de chefe de suco", contemplava os beiros na faina de pesca nocturna com redes circulares, estando os pescadores devidamente vigiados pelos marinheiros das lanchas postadas na pequena baía. Acompanhado de uma sentinela, a espia foi levada à presença do chefe que se deliciava com um bom cálice de saqué pousado sobre uma mesa de rota. - Então, finalmente, essa lista? A espia entregou-lhe um caderno de escola comprado numa loja china onde estavam os nomes dos voluntários distribuidos por zonas: Ponta Leste 40, Manatuto 45, Atsabe e Maliana 50, Suai e fronteira 50, incluindo 10 degredados javaneses fugidos das cadeias holandesas, ao todo 195 elementos e dos bons. - Belo trabalho! Agora podemos começar a juntá-los em Taci Tolo onde já mandei construir uns barracões de palapa e uma zona para treino de tiro com Mauser e técnicas de guerilha dadas pelos nossos bons instrutores, etc. Só depois é que irão actuar no interior da ilha em colaboração com as nossas tropas numa guerra de guerrilhas que servirá para abater os australianos e trazer para o nosso lado algum pessoal ainda apegado ao regime colonial português. Vai levar 385 libras de cavalinho, duas para cada aspirante a guerrilheiro. O resto ficará para quando tiverem provas dadas. Mas previna aos seus homens que não brincamos em serviço. Se houver fugas rolam as cabeças, pois não quero gastar balas... A espia tremeu e partir convicto que o Comandante falava verdade pois os fuzilamentos e decapitações eram frequentes em várias zonas da ilha, principalmente na Ponta Leste da ilha, zona mais controlada. Pela rede montada através de mercadores dos bazares, a espia foi convocando os alistados para o treino que iria ter início nas Lagoas de Taci Tolo, não longe de Díli. Nessa altura receberiam outras instruções. O primeiro treino das Colunas Negras teve lugar nesse local a 15 de Março de 1942, pela manhã. Os voluntários em grupos de dúzia, não mais, iniciaram-se no manejo das Mausers, granadas de mão, explosivos vários, técnicas de golpe de mão e emboscadas. O treino era ministrado pelo tenente Tokoyoko, jovem e exigente oficial que estivera em missão nas Filipinas, havias meses. O comandante Kyoto fazia inspecções de rotina e exames ao grupo e ficara satisfeito com os progressos obtidos em tão pouco tempo. Foi-lhe explicado que alguns foram soldados no exército colonial, onde os armamentos eram mais antigos, da primeira guerra. O comandante explicou que eles tinham a vantagem de conhecer bem o terreno e os pontos mais vulneráveis da linha inimiga. O espião anotara que a zona da fronteira com o Timor holandês era vulnerável, principalmente nos postos administrativos de Fohorém e Fatuc Lulic onde a população estava descontente com os chefes, não falando da zona de Aileu, cerca de cinquenta quilómetros de Díli, onde havia paiol central de munições de fácil ataque. Com esses dados Kyoto reuniu-se com o seu estado maior e traçou um plano de ataque aos postos de Fohorém e Fatuc Lulic - o primeiro ataque das Colunas Negras secundados pelos nipónicos - verdadeiros libertadores do povo timorense, oprimido pelo jugo colonialista, havia séculos, segundo apregoavam a quatro ventos. Dias depois, o ataque ao posto de Fatuc Lulic estava engendrado. Sabia-se que o chefe de posto andava armado e tinha armas guardadas em casa que era coberta de colmo. Assim o plano foi fácil, segundo testemunha ocular. Pela calada da noite, um grupo pegou fogo à palha, enquanto outro, postado não longe da porta, estava de armas prontas a disparar. Assim aconteceu. O chefe de posto metropolitano tentou escapar-se do fogo e ao aproximar-se da escadaria da varanda para fugir foi logo abatido e com a arma nas mãos. Os sipaios ainda tentaram resistência da secretaria mais a desvantagem de fogo jogou a favor da Coluna Negra, que inaugurava a sua época de terror em Timor, durante a segunda guerra. A operação de rescaldo fora confiada a um grupo de nipónicos que apenas aguardava a oportunidade para intervir para restabelecer a ordem após o caos reinante por eles provocado. A notícia do assalto ao posto de Fatuc Lulic, com várias baixas, correu toda a ilha como fogo em palha seca e o temor às Colunas Negras viria a confirmar-se, dias depois, no massacre de Aileu. Os ataques das colunas negras tiveram continuidade por toda a ilha, sendo os locais mais atingidos os postos fronteiriços de Fohorém, Fatuc Mean e Fatuc Lulic, fronteira com o território holandês. Chegou a Díli a notícia que a chacina fora total eselvática, a começar pela casa do chefe de posto. Relataram que as temíveis Colunas Negras atacavam com uma ferocidade e selvajaria nunca vistas. As operações tinham lugar pela madrugada, não poupando catuas, mulheres e crianças, lançando fogo a tudo que pudesse arder, espalhando terror e caos. Poucos conseguiam fugir para contar o sucedido. A pilhagem era total: bens, ouros, pratas, comida e gado. Depois apareciam os nipónicos para restabelecer a ordem - os tais libertadores. As colunas, bandos de assaltantes, desapareciam nas matas, preparando-se para um novo ataque já planeado pelos invasores. Capítulo VI Dia 12 de Abril de 1942 Os ataques das colunas negras espalharam por toda a ilha de Timor, sendo os locais mais atingidos os postos fronteiriços de Fatuc Luluic, Fatuc Meam e Fohorém, juntos ao Timor holandês. Chegara à capital Díli a notícia de que a chacina foi total, a começar pela residência do chefe de posto de Fatuc Lulic que fora incendiada e toda a guarnição de sipaios, moradores e o próprio chefe mortos. Relatavam que as temíveis colunas negras atacavam com ferocidade e selvajaria nunca vistas, sempre pela madrugada, não poupando nem velhos, mulheres ou crianças, lançando fogo em tudo que pudesse arder, pilhando e semeando caos, pior que os japoneses que também nada poupavam, chegando sempre, depois, como verdadeiros libertadores do povo. Ocupavam então os locais com a tropa regular. Assim, logo que a população presentia a aproximação das famigeradas colunas negras, abandonavam as casas e refugiam-se nas matas e grutas das montanhas, aguardando que o ataque cessasse, só regressando de vez às povoações, quando ocupadas pelos pseudo libertadores, pois esses, embora fazendo alguns fuzilamentos, homens em geral, poupavam a população. Logo após os ataques, o espião Lemos, disfarçado de mulher, visitava os locais queimados para colher elementos para o relatório a apresentar ao comandante Kyoto e assim poder receber as tais libras de ouro de cavalinho para pagamento aos mercenários. A onda de ataques, iniciada na fronteira chegou a Aileu, vila a pouco mais de cinquenta quilómetros a norte de Díli. Há um bilhete que prova a ferocidade e selvajaria de um desses ataques das CN, bilhete de autoria de José dos Santos Carvalho, médico que estava em Timor, desde o ano de 1940 e que se transcreve com toda a sua dramaticidade revoltante. Lia-se: "... Altas horas da noite desse dia, chegou ao Hospital de Lahane um timorense, emissário de um liurai dos arredores de Aileu, com um bilhete redigido, mais ou menos, nos seguintes termos: Senhor engenheiro: Eles foram a Aileu e estragaram tudo. O portador da mensagem nada mais pode adiantar para satisfazer as perguntas que com natural ansiedade lhe fizemos, pois não vivia em Aileu... Contou-nos, então, o sargento Martins que, na madrugada do dia 1 de Outubro de 1942, o aquartelamento da Companhia, instalada no Depósito de Degredados de Aileu, havia sido subitamente atacado e bombardeado e, em seguida, por granadas de mão e alvo de tiros de metralhadora e espingarda, ouvindo-se gritos em língua indígena desconhecida em Timor entre as quais se destinguia a palavra "Atambua". Tratava-se, pois, de uma Coluna Negra principalmente recrutada nessa cidade do Timor holandês. A guarda da Companhia, encurralada dentro dos muros de Presídio, pois os japoneses haviam exigido que não patrulhassem as suas imediações, reagiu, saindo à portada, disparando uma metralhadora e espingardas. Os cabos Evaristo Gregório Madeira e Júlio António da Costa, os soldados Álvaro Henrique Maher e João Florindo e vários soldados timorenses morreram, atingidos pela metralha, aqueles quatro europeus e seis soldados timorenses. O ataque parou então, o que permitiu a fuga dos sobreviventes tendo, porém, alguns militares europeus ficado dentro do edifício do aquartelamento, escondidos, e acaçapados no vão de um sobrado, coberto com tábuas que tinham levantado. A menina Julieta, filha do tenente Lopes, contou-nos pormenorizadamente a tragédia que se tinha desenrolado na habitação em que estava instalado o comandante da Companhia e situada perto do Aquartelamento. Naquela noite, temerosos de acontecimentos terríveis que pressentiam, haviam-se acolhido à casa do comandante, o administrador Virgílio Duarte, o doutor Dinis Ângelo Arriate Pedroso ( Delegado de Saúde da Zona Oeste, que habitava em Aileu, desde Junho), o Secretário da Administração de Aileu, José Gouveia Leite, sua esposa e dois filhos, (um de sete anos de idade e outro ainda de peito), o chefe de posto auxiliar António Afonso, as três filhas do tenente Lopes e o filho do tenente Liberato, de doze anos de idade. O ataque principiou pelo quartel mas logo passou à casa do comandante que foi varrida por saraivada de balas a que começou a ser lançado fogo, pegando-o a uma dependência que servia de capoeira e lhe estava encostada. Não tendo dúvidas que iriam ser mortos, torturados pelos assaltantes, tal como acontecera ao Martins Coelho em Maubisse, e vendo que ficariam assados no braseiro em que a casa começava a tornar-se, todos os que ali encontravam foram tomados do maior pânico, em especial que temiam os piores vexames para as suas esposas que preferiam ver mortas. Em resultado deste estado de espírito o capitão Freire da Costa suicidou-se com um tiro de pistola na cabeça, a sua esposa procedeu do mesmo modo com um pequeno revolver, o Dr. Pedroso encostou a espingarda ao peito e desfechou sobre o coração, e o Secretário Gouveia Leite e o chefe de posto António Afonso meteram as espingardas sob o queixo e dispararam. Em poucos instantes, todos estavam mortos. O administrador Virgilio Duarte teve, então, a ideia de se misturar com os cadáveres e fingir-se de morto. Assim fez, e foi isso que lhe salvou a vida..." II PARTE Capítulo I Dia 22 de Outubro de 1942 Após o bem sucedido golpe de Aileu, Kyoto chamou a espia Bia Cura (Lemos) e entregou-lhe uma boa porção de libras em ouro para o pagamento aos mercenários, encarregando-lhe, agora, de uma outra missão mais secreta ainda, a ser executada por trabalhadores rijos e de bom físico, pois não se tratava de combater nas colunas negras mas sim de escavar tuneis nas montanhas de barro branco no Leste da ilha, para paóis de munições, armazéns de aviões de caça desmontados e que seriam usados na devida altura para invadir a Austrália. Esses túneis serviriam também para guardar bidons de gasolina para futuras operações de ataque, combustível inexistente na ilha. O local fora escolhido pelos comandos nipónicos sedeados nas Filipinas e seriam entre Vanilale e Baucau, segundo os estudos feitos pelo engenheiro militar Toyoto, já conhecedor da ilha, e não muito longe da estrada que servia a zona - terreno de argila branca, firme e de fácil perfuração com picaretas e pás - nada de maquinarias... O comandante Kyoto disse à espia Bia Cura (Lemos) que além do armamento havia uma carga especial que teria de ser transportada do vaso de guerra Yamamoto, ancorado em Baucau para o túnel secreto, alta tecnologia desconhecida pelo inimigo e aviões com asas desmontadas, prontos a aparafusar e levantar voo em devido tempo para atacar a Austrália inimiga e aliada dos americanos e europeus. Kyoto marcara o dia primeiro de Novembro dese ano de 1942, para o início das escavações. Queria grupos pequenos, de não mais de vinte trabalhadores, dos bons, que seriam rendidos, semanalmente, por outros e pagos generosamente com muitas libras de cavalinho. Lemos regressara ao Bairro Árabe, nos arredores de Díli, já como homem rico e com dinheiro suficiente para comprar muitas cabeças de búfalos ao Mau Loe e lavrar as várzeas de néli de Comoro, além de reconstruir a sua casa com tijolos de cimento e telhado de zinco ondulado pintado a encarnado. Foi então, como novo homem importante da povoação que foi chamado à autoridade e depois de levar muita porrada na prisão resolvera contar tudo o que sabia: das colunas negras às ambições dos nipónicos em invadir a Austrália no momento oportuno. Mesmo assim o administrador Santos libertou-o, mas agora com uma missão mais arriscada: vigiar os japoneses e trazer informações para as autoridades portuguesas para transmitir à tropa e Consulado australianos. Certo dia, os nipónicos informados pelos seus serviços secretos que descodificaram as mensagens transmitidas em código Morse de Baucau do vaso Yamamoto para a Sede - um couraçado algures no Pacífico - armaram uma cilada e detiveram o Lemos não muito longe das lagoas de Taci Tolo, a caminho de Liquiçá quando ia levar informações ao administrador. Detido o traidor, foi levado para as margens da lagoa, espancado, torturado, amarrado a um pé de palavão branco e fuzilado por um pelotão sob o comando do seu amigo tenente engenheiro das obras da Ponta Leste. Esse tenente encarregou a um outro espião o Mau Cura II do recrutamento de mais vinte homens para substituir os que tinham sido contratados pelo traidor Lemos, enterrado em Taci Tolo. *** Timor, Venilale, 5 de Novembro de 1942: As chuvas de monção tinham começado a cair, mas com a montanha já estava esburacada os novos trabalhadores, sob o comando do Mau Cura II, deram início à continuação da escavação nos barrancos de terra branca, ao lado da estrada para Baucau. Foram distribuidos pás, picaretas, enxadas e ferros, além de carrinhos de mão para o transporte da terra removida. Deu-se continuação à obra do túnel, cuja única abertura para o exterior ficava bem disfarçada por tufos de bambus verdejantes. O engenheiro militar nipónico, de farda clara da cor da terra a ser escavada, dava ordens, sempre consultando um mapa da região, enrolado e preso por um elástico amarelado. As pás e as picaretas iam rasgando a argila branca do barranco e o caulino era transportado em carrinhos de mão rangendo nos eixos até ao exterior onde era depositado num barranco camuflado com bambus recém-cortados para não deixar vestígios ao inimigo australiano, sempre atento e perigoso com as emboscadas e golpes de mão mortíferos. Ao fim do primeiro dia do segundo turno, um 13 de Novembro de 1942, o túnel de Venilale já tinha mais de cinquenta metros dentro da encosta e uma altura de cerca de três. O comandante Kyoto, nesse dia, de passagem para o porto de Baucau, resolveu inspeccionar a obra, pelo que um gerador de campanha da marca Hondaiok fora ligado e os potentes projectores tornaram o ambiente mais frio e penetrante. Viam-se vultos esbranquiçados de trabalhadores timorenses, de tronco nu, manchados pelo branco sujo da terra molhada pelo suor, olhos encovados, costelas arqueadas quase à mostra, cavando, cavando sempre, sem parar, a troco de uma libras de cavalinho em ouro que nunca chegariam a receber. A água escorria do tecto em pingos gelados e impertinentes e formava algumas poças no chão de lama branca que fugia em esguichos saltitantes por entre os dedos dos pés descalços dos magros voluntários à força. O comandante ficara satisfeito com o andamento da obra mas informou ao engenheiro que além de aviões, munições e combustíveis em bidons, queria espaço livre para guardar os aviões despojados de asas e oficina para os militares de engenharia fazerem as montagens finais. Por isso, logo a seguir ao primeiro corredor já aberto, com cerca de cinquenta metros de fundo, queria uma sala-oficina com pelos menos cinquenta metros por vinte, cem metros quadrados, fez as contas. - E como vamos conseguir isso, meu comandante? - era a questão posta pelo engenheiro - vendo a data a aproximar e sem recursos humanos para tamanha obra encomendada pelos altos comandos. - Caro engenheiro, ordens são ordens, cumprem-se não se discutem, entendeu? Contrata mais trabalhadores quando se livrar de vez desta corja, está a entender-me...Vou a Baucau e Ossú e, quando passar por cá, de volta, daqui a duas semanas, quero ver obra feita, entendeu? Ordens do camando. Estamos em guerra e as coisas no Pacífico não vão de feição com a intervenção do poderio naval americano, depois do nosso fracassado ataque a Pear Harbor... - Entendido, meu comandante, e lamento não termos conseguido afundar toda a esquadra americana, ficando de fora, algures no Pacífico Central, os porta-aviões, couraçados, torpedeiros prontos para nos atacar em qualquer ponto desse enorme Pacífico, defendido com bravura e espirito de sacrificio dos nossos bravos soldados sob o comando Divino do Imperador que reza por nós do seu Palácio no centro de Tóquio, cercado de água dos deuses e bosques sagrados do Buda Eterno. É o nosso orgulho que fica em jogo. "Mais vale a morte que a derrota" - como aprendemos na Academia Militar de Osaka, nos velhos tempos... O engenheiro chamou o Mau Loe II e assim lhe falou: - Esta obra vai ficar pronta em quinze dias, não é verdade? Espero que sim - respondeu-lhe o capataz sem grande convicção, pois os trabalhadores estavam cansados e mal podiam espetar a pesada picareta nos barrancos que até eram de terra mole, sem pedras nem raizes. - Você é capaz de arranjar mais uns vinte homens que serão pagos a duas libras de ouro de cavalinho por dia? - Sim, senhor engenheiro... Amanhã vou a Ossulata buscar mais reforços frescos... Nessa noite, um camião militar carregou os trabalhadores já esgotados da gruta, enganados que iam ajudar a construção da casa do comandante no Bairro do Farol na capital, trabalho menos penoso. Só que, chegados a Díli, foram levados para a fatídica estrada de Comoro-Taci Tolo, a caminho de Liquiçá. Mandados desembarcar, um pelotão de fuzilamento estava de armas aperradas e após cavarem uma vala foram alvejados e enterrados nesse trágico cemitério de Taci Tolo. A segunda vaga de trabalhadores assassinados foi substituida por outros vinte mais vindos da povoação de Ossulata mas agora chefiados pelo capataz Lucio Bau, que fora cabo de sipaios e conhecedor de métodos mais eficazes para os pôr a trabalhar mais depressa "aquele bom chicotinho do senhor chefe de posto" - informava ao engenheiro. Este, apreensivo com o andar da obra, disse-lhe que tinha carta branca para utilizar o método mais adequado, pois a solução final já a tinha na manga... Se fosse preciso que encomendasse ao china Lu Yong Si de Baucau um garrafão de tuassaba e a distribuisse aos trabalhadores conforme os méritos revelados na escavação em curso... As obras decorreram em bom ritmo e as metas traçadas pelo engenheiro quase a ser conseguidas, quando o grupo de trabalhadores, sem receber ainda nenhuma libra de cavalinho, resolvera entrar na santa sorna, de greve. Mesmo à força de ameaças de espancamento, as picaretas caiam devagar sobre a terra e não tiravam mais do que uma pequena lasca de terra que rolava lentamente para os carrinhos de mão ao ritmo da falta de força física e moral desses trabalhadores que pressentiam no ar algo de mau. Assim aconteceu. Eram precisos agora na Ponta Leste, onde uma pista para aviões estava a ser construida por uma outra equipa de operários. - Rotação de trabalhadores - afirmava o engenheiro. Metidos num camião militar, sob a vigilância atenta de soldados e do próprio cabo de sipaios, o destino era, afinal, a ribeira de Comoro, Bairro Árabe, Taci Tolo, vala aberta e pelotão de fuzilamento, incluido o sipaio quando já se preparava para receber as libras de cavalinho, de mãos estendidas... Outra leva de contratados fora alistado para ultimar as escavações cujo fim se aproximava e havia ainda muit obra ainda por realizar. O engenheiro soubera da existência de um nativo que trabalhara com os nipónicos, quando, antes de estalar a guerra, estiveram em Timor estudando e reconhecendo o terreno fazendo-se passar por madeireiros interessados na compra de sândalo, teca, pau-ferro e pau-rosa, madeiras preciosas. O guia de então, o Luis Bua, que morava em Viqueque, foi contactado pelo técnico, tanto mais que falava inglês, tétum, mambai, bunac e já percebia algumas conversas em japonês. O Luis Bua fora seminarista em Fatuc Maca, Dare e colégio em Macau e por lá ficara por não ter vocação para padre. Aprendera o mandarim e frequentara um curso de japonês para estrangeiros em Hong- Kong. O engenheiro conhecedor dos seus talentos mandou uma secção a Viqueque com a intenção de o convencer a vir trabalhar na obra, trazendo cinquenta trabalhadores a duas libras por dia, oferta bastante generosa. Se não quizesse vir os soldados tinham ordens para o prender e levá-lo à presença do Comandante. Os soldados meteram-se a caminho de Viqueque, passando por Baucau e Ossu. Em Baucau viram no porto vários vasos de guerra, uma frota à espera de ordens para invadir Austrália ou quiçá defender as obras de construção das pistas da Ponta Leste da ilha. Chegados a Viqueque dirigiram-se à povoação para localizar o Luis Bua, tarefa muito difícil pois dias antes, tinha sido fuzilado D. Jeremias de Lucas, régulo altivo que recusara a entregar a bandeira portuguesa preferindo queimá-la e engolir as suas cinzas, facto que lhe mereceu torturas, espancamentos, abertura da cova, fuzilamento e o peito trespassado pelas baionetas nipónicas já dentro do túmulo. A terra estava freca e as ervas ainda não tinham coberto a sepultura de D. Jeremias. Luis Bua recusou a oferta pelo que foi preso, atado com lianas e conduzido ao engenheiro com mais trinta trabalhadores - voluntários devidamente amarrados, certamente em troca de nada, catados à força nas várzeas de neli de Ossu e arredores. Chegados à obra, o engenheiro devidamente preocupado com o termo da obra, ordenou que todos trabalhassem noite e dia e que o túnel ficasse pronto até 25 de Novembro, data em que o Comandante Kyoto regressaria de Baucau para se dar inicio ao descarregamento do barco de guerra Yamamoto, cujas barcaças estavam prontas. O capataz contrariado e com medo de ser fuzilado fingiu cooperar dando ordens ríspidas aos operários e assim foi ganhando confiança do engenheiro que tinha óptimas informações dele e prometera choruda recompensação. O capataz sabia que todos os anteriores trabalhadores tinham sido levados em camiões para Taci Tolo e fuzilados, pelo que o destino dele e seus companheiros não podia ser diferente. Certa noite, ouvira uma conversa do engenheiro com o comandante e apercebera-se que além de aviões, munições, combustível havia algo de mais secreto a ser escondido no fundo da gruta, num compartimento bem construido para ser minado. Ouvira as palavras "Tesouro de Singapura", limpar todas testemunhas e outras termos que não soube traduzir por serem ditos em japonês. Certa noite, ao ver a sentinela dormitando à custo do saqué bebido em demasia, embrenhou-se pelo mato adentro e desapareceu em direcção ao mundo perdido situado nas cordilheiras do Matan Bia, a mais de dois mil metros de altitude, local pouco acessível com muitas grutas, donde podia vigiar os movimentos inimigos e até ver os couraçados e contratorpedeiros vigiando a ilha de Timor. No Mundo Perdido o ex-capataz foi sobrevivendo de caça e pesca nas lagoas. No dia marcado, o Comandante Kyoto de regresso de Baucau a caminho de Díli passara pela obra. - Então engenheiro posso dar ordens para começar a descarregar os aviões, bidons de gasolina, e no final, "aquela" carga preciosa para recuperarmos após a nossa vitória e reconstruir o nosso amado Japão. O engenheiro foi tão convincente que Kyoto não necessitou de sujar a sua imaculada farda branca naquele buraco escuro cheio de pó, pejado de trabalhadores magros, esqueléticos e manchados de suor e lama para verificar a obra. Pôs o Jeep em marcha e arrancou numa nuvem de poeira, rumando Manatuto e Díli, onde o esperavam para uma reunião ao mais alto nível, pois as batalhas navais no Pacífico não estavam favoráveis ao seu país, passando sérias privações com o corte de abastecimentos pela armada americana -"senhora e dona desse Oceano que já fora japonês" -como afirmara amargamente. Quando o jeep desapareceu na curva da picada o engenheiro, de face suja pela terra que caira do barranco, sentou-se num banco de bambu e chamou pelo capataz: - Senhor, o capataz não está no túnel. Deve ter ido às latrinas no mato! - Quando chegar que se apresente e tu Bere Mau ficas a substituí-lo e força com essa gente pois ainda temos mais acabamentos a fazer antes do cabo montar a electricidade e ventiladores. - Mas senhor engenheiro o pessoal encontra-se cansado e sem forças para empurrar o carrinho com terra para fora da gruta. Está fraco e sem receber ainda qualquer libra de cavalinho como paga. Suspeito que o capataz deve ter fugido para o mato. - O quê? Fugiu para o mato! Sacana é como os outros: traidor que merece ser fuzilado, ou antes, enforcado numa arequeira à beira da estrada para exemplo, pois a bala custa yenes ao Imperador. De seguida deu ordens a uma patrulha para apanhar esse traidor, com ordens de o trazer, vivo ou morto. Nessa altura, o Luis Buac estava bem escondido nas grutas de Matan Bia comendo um pombo bravo bem assado, caçado com azagaia sem fazer ruído. Lá em baixo vira algum movimento de tropa e o Yamamoto a fumegar pelas caldeiras. A essa hora, os últimos contratados estariam a ser enterrados nas Lagoas de Taci Tolo, onde mais de uma centena de ossos estorricavam naquele salgado e sinistro local de Timor: Taci Tolo - três lagoas. Capítulo II Manhã de 25 de Novembro de 1942 Na baia de Baucau, fundeado num mar esverdeado, ensombrado pelas palmeiras curvadas sobre as águas, o Yamamoto descarregava material para as lanchas de desembarque. A tropa japonesa cercava a zona e os pescadores com as suas redes enroladas encostados aos beiros ficaram em terra, observando. Apenas algumas crianças brincavam sem receio junto à linha de rebentação. Luis Buac, disfarçado de pescador, envolvido na sua lipa, catava lenha na encosta como nada se passasse mas observando tudo e anotando num papel para informar aos australianos: Bidons de gasolina novecentos e trinta; caixotes grandes com asas de aviões duzentos; bombas de quatrocentas libras oitocentas; caixotes vários com ferramentas, certamente, oitenta ... Na praia, uns camiões militares e outros requisitados aos comerciantes chineses eram carregados por nativos de tronco nu devidamente vigiados pela tropa. No fim, com muito cuidado, um caixote grande - o que devia conter o tesouro do Banco de Singapura foi arriado com cuidado e levado numa viatura mais vigiada, quase um pelotão - era a carga mais preciosa - pensara! Aquando da construção do túnel, ouvira uma conversa entre o comandante Kyoto e o Engenheiro sobre a preciosa carga, o Tesouro de Yamashita, que seria transferido para o Imperador logo que Austrália fosse conquistada e o Japão dono do Mundo, juntamente com a Alemanha e a Itália. Para se certificar do ponto de descarga, Luis Buac escondeu-se numa camioneta china que ia levar néli a Díli e desembarcou antes da gruta. Por um carreiro de veados foi espreitar a obra e tinha razão. Além de armamento, combustível e bombas havia algo mais de secreto e valioso. Seria, talvez o caixote com ouro, moedas, joias do Banco de Singapura. Tirou do bolso um lápis e um bocado e papel e fez um esboço da zona: Depois de tudo arrumado no tunel, os soldados regressaram aos quarteis e constou que o engenheiro morreu "por acidente com arma de fogo"- segundo relataram os mainatos da casa do capitão. O espião agora tinha uma informação preciosa para transmitir aos australianos e ao governador sedeado em Liquiçá. Só que ao pensar no que acontecera ao capataz Lemos, resolveu esconder o esboço numa caverna do mundo perdido, guardado num canudo de bambu, para lá ir após a guerra. Capítulo III Natal de 1942 A guerra, que até então corria de feição aos nipónicos no Pacífico, começar a mudar de rumo. O ataque relâmpago à base americana de Pearl Harbor, ocorrido a 7 de Dezembro de 1941, obrigara os Estados Unidos da América a entrar nela. A poderosa e fresca armada e esquadrilhas de aviões nipónicos começaram a perder poder de manobra, dizimadas pelas tropas americanas em ferozes batalhas navais e aéreas no Pacífico. A batalha de Midway, ocorrida em Junho, enfraquecera ainda mais o orgulhoso mas já desmoralizado poderio imperial japonês. Em Timor, o Comandante Kyoto, igualmente desmoralizado pelas notícias que chegavam de fora, mandara fuzilar o resto dos trabalhadores que tinham escavado o tunel de Venilale e dinamitar a sua entrada, evitando que ela viesse a cair na mãos dos australianos. Ordenou que os aeródromos da ponta Leste fossem inutilizados com montões de terra espalhados pela pista de forma a evitar a chegada aérea de reforços inimigos e material de guerra. Reforçou as baterias antiaéreas instaladas em casamatas e preparou-se para suster uma possível invasão das tropas australianas ou americanas, quer por mar quer pelo ar. O estado geral da tropa era de nítido desespero. Chegavam noticias de emboscadas bem sucedidas da Companhia australiana auxiliada por bravos timorenses entre os quais se destinguia um tal Matias Madeira, nas zonas de Ermera, Atsabe e Hatolia. Como comandante experimentado, Kyoto via a guerra mudar de rumo e seu país derrotado, depois do desembarque das tropas inimigas na Normandia, no dia "D". A França, Alemanha, Itália estavam praticamente derrotadas e ocupadas, os judeus libertos dos campos nazis, enfim, o princípio do fim do sonho alemão de Hitler e do domínio japonês do Pacífico. Kyoto mudara o seu quartel general para a zona de Atsabe, tentando controlar as suas tropas já desmoralizadas e com pouco vontade de combater pois as emboscadas das tropas australianas estavam a causar sérias baixas. Eram bem organizadas e com informações certas de nativos. Os resultados deixavam o inimigo sem grande vontade de combater. Kyoto gostava da zona de Lete-Foho e de Atsabe, zonas muito semelhante à paisagem de Shizuoka, região onde nascera no Japão, não faltando as laranjeiras em flor, chá verdejante, cerejeiras e até o Ramelau, monte mais alto de Timor que o fazia recordar o seu Fuji Hama, este sempre coberto de neve permanente. Pensava no futuro, quando acabasse a guerra. Sendo ele o único detentor do segredo do Tesouro de Yamashita, levaria uma vida regalada numa das ilhas do Pacífico - a ilha de Truk foi a escolhida - onde estivera a combater no ano que findara com bons resultados, antes de vir para Timor. Kyoto viveu muitos meses aguardando o andamento da guerra cujos colegas de armas, nas Filipinas, Malásia e até nas Aleutas, quase no círculo polar ártico, estavam a ser dizimados pelos amaricanos, após sangrentas batalhas terrestres, navais e aéreas. Muitos soldados japoneses preferiam o suicídio a entregar-se. Foi nesse dia de Natal de 1942, que, sentado à varanda do quartel, tomando chá verde, tendo ao lado o tenente Yokito que começara a pensar no significado dessa guera que já tinha custado milhões de vidas ao Japão só para satisfazer as ambiçoes divinas do Imperador, agora sentado no seu Palácio em Tóquio, seguindo tudo pelas informações que lhe eram trnasmitidas, duas vezes ao dia pelo alto comando militar. Sabia que o fim do império japonês estava para breve e que o seu país, mais dia, menos dia, ia capitular. - E se desertasse? Logo começava a cismar no tesouro escondido de que era o único detentor de que poderia aproveitar-se, finda a sangrenta guerra. Logo ouvia na sua mente perturbada os disparos das espingardas e o grito dos corpos de trabalhadores da gruta tombando para as valas abertas na salgada terra das lagoas de Taci Tolo. Absorto nos seus pensamentos, fora acordado por um secretário militar, trazendo uma bandeja com chá verde colhido nas encostas de Lete-Foho e um comunicado em código, recebido do Alto Comando de Informação Militar do Pacífico [ACIMP) sedeado num porta aviões, algures no Pacífico, escondido das frota americana infernal. Com a cifra, começou a descodificar o comunicado secreto e pelo semblante carrancudo, não devia ser nada de agradável. Comunicado Classificação: confidencial: Nesta altura, a propaganda evidenciava o povo unificado, praticando um esforço de guerra e apoiando o seu imperador. Para além disso, os japoneses estavam bastante convencidos da vitória na guerra. Aliás, o sucesso retumbante do ataque-surpresa a Pearl Harbour, no dia 7 de Dezembro de 1941 - em que, num só dia, boa parte da Frota do Pacífico estacionada naquele porto do Havai foi inutilizada, matando cerca de 2400 pessoas - favoreceu muito a auto-estima nipónica, fazendo Tóquio acreditar que a vitória sobre os Estados Unidos era alcançável. Nesse espírito, após o ataque a Pearl Harbor, o Japão conquistou as Filipinas, a Malásia, as Índias Holandesas e Burma, mau grado o esforço das tropas dos Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia, que tentaram travar o avanço japonês. O ponto de viragem da guerra do Pacífico apareceu no mês de Junho de 1942, aquando da Batalha de Midway. A vitória americana em Midway acabou com a esperança do Japão de controlar o Pacífico. Os Estados Unidos da América deram início a uma longa contra-ofensiva, tendo recapturado algumas ilhas do Pacífico que o Japão havia ocupado. Mas Tóquio recusava a rendição. E os Estados Unidos pretendiam terminar a guerra com a rendição incondicional do Japão. Para além disso, também queriam evitar mais batalhas como as de Iwo Jima e Okinawa, onde tinham sofrido pesadas baixas. As palavras Iwo Jima e Okinava fizeram tremer o Comandante Kyoto, que nem acabara de ler o resto da mensagem, recebida no posto de comunicações de Lete-Foho, nessa tarde de névoa a cobrir as plantações de cafeeiros. Nos ouvidos, a frase acabou com a esperança do Japão de controlar o Pacífico e Tóquio recusava a rendição. O comandante ia recebendo diariamente as notícias das derrotas dos japoneses no Pacífico, Filipinas, Malásia. Algumas cidades do Japão já estavam a ser bombardeadas pelos americanos alastrando um mar de chama nas casas de madeiras das cidades e arredores. Sentado à porta do Comando, e para se distrair. - Então as colunas negras já desapareceram? Era a pergunta ingénua do comandante ao Bere Lica, criada que engomava as suas roupas. Até disseram que fomos nós, os japoneses, que os contratamos com pagamentos em libras de cavalinho. Boatos baratos... Bere Lica respondera que conhecia a história de dois voluntários para as Colunas, vindos de Viqueque mas que ficaram nas obras da pista. Iam ao posto dar nomes nos cadernos de recenseamento quando um cabo de sipaios da administração os convidou para trabalhar nas obras da pista. - Pista para o inimigo australiano? - Não, para a administração portuguesa da ilha... - Conta lá pois estou curioso em conhecer coisas de Timor que vou deixar dentro de poucos dias, à administração legítima desses colonialistas. Bere Lica lá foi contando essa pequena história. Os dois candidatos a colunas negras deixaram a serração onde trabalhavam e meteram-se a caminho da secretaria do posto quando o cabo Mariano anotou os seus nomes pois necessitava de trabalhadores para uma obra urgente, a abertura de uma pista de terra batida, bem no meio de um coqueiral antigo a abater e destinada a aviões que passariam a escalar a localidade, pelo menos uma vez por semana. O agente de autoridade, sentado nos degraus de cimento da escadaria procurou travar conversa com os recém-chegados: - Então vão procurar trabalho em Díli, não é verdae? Já não há mais várzeas para lavrar nesta zona. Cidade, cidade! Toda a gente quer ir para cidade. Não têm medo do japoneses e das lagoas de Taci Tolo? O sipaio batia com um chicotinho de couro entrançado nas pernas bambas da sua farda de caqui amarelo. - Sim. Responderam em uníssono os dois rapazes. - Se quiserem podem começar atrabalhar aqui, já amanhâ. Tenho trabalho para vocês. O salário é de seis escudos diários (uma pataca) e não uma libra de cavalinho como pagaram aos trabalhadores das grutas de Venilale e que nunca mais voltaram às suas terras. Até dizem que estão semeados, para sempre, em Taci-Tolo - arredores de Díli. O comandante Kyoto fora interrompido no seu lazer por um soldado que lhe trouxera uma outra mensagem que devia trazer más novas: Fonte BBC: A contra-ofensiva americana no Pacífico "... Recuperando-se das perdas em Pearl Harbour e transferindo parte de sua esquadra do Atlântico para o Pacífico, os americanos dão início a contra-ofensiva que tendo início em Maio de 1942. A batalha do mar dos Corais põe fim a ofensiva japonesa no Pacífico Sul. Em Junho tratava-se a primeira grande batalha naval em Midway, onde os nipônicos perdem 4 porta-aviões propiciando o desembarque americano em Guadalcanal (Agosto de 1942). O ano de 1943 dá início à maciça ofensiva americana-australiana sob comando do Gen. Douglas Mac Arthur, que ocupa pequenas ilhas do pacífico sul-ocidental afastando os japoneses da região. Em 1944 iniciam a operação de reconquista das ilhas Filipinas que terminam ocupadas em fevereiro de 1945. Paralelamente a este processo, britânicos e americanos, após recuperarem a estrada que liga a Birmânia à China, passam a enviar equipamentos militares para o exército de Chiang-Kai Shek. No entanto, os resultados esperados não se fazem sentir. Chiang, teme muito mais seu rival Mao Tse-tung, que as forças japonesas. No biênio obrigados a recuar em todos os frontes. A Guerra do Pacífico, possui características próprias. Ao contrário da guerra na Europa, baseada em operações de blindados e massas de tropas, a guerra contra o Japão, envolveu basicamente unidades navais - onde os porta-aviões tiveram um papel dos fuzileiros navais foi de relevante importância. Praticamente eram operações de "desentocamento" - pois os japoneses resistiam estoicamente em suas posições. A artilharia da marinha, os bombardeios aéreos, o lança-chamas, as operações de desembarque, foram os denominadores comuns da guerra no Pacífico. Em 19 deFevereiro os americanos desembarcam pela primeira vez em território nipônico, travando a batalha pela posse da ilha de Iwojima e logo após a de Okinawa. Estas duas batalhas sangraram profundamente o corpo de fuzileiros navais. A Marinha Imperial, que sistematicamente vinha sendo derrotada, praticamente se desativou no primeiro semestre de 1945. Deve-se destacar, que a superioridade técnica dos aviões Zero pouca efectvidade tiveram contra as levas de aviões americanos. Em desespero, jovens pilotos japoneses transformaram-se em kamikazes (pilotos suicidas), que após abarrotarem seus aviões de bombas, lançam-se directamente contra as embarcações inimigas. Apesar da bravura pessoal dos kamikazes, pouco efeito tiveram no resultado geral do conflito... " O Comandante Kyoto pousou a chavena de chá na bandeja, tirou o bivaque da cabeça, coçou os poucos cabelos brancos e dobrou a mensagem noticiosa e dirigindo-se à Bere Lica disse-lhe para continuar com a história da pista dos portugueses, embora estivessem realmente distraído com um bando de brancas cacatuas que acabavam de pousar numa madre-del-cacau, na curva da picada a ficar coberta pela fria névoa que fazia recordar a sua povoação natal de Shizuoka no Japão como Fuji Hama ao fundo, calmo e sereno como o Monte de Ramelau. - A pista era para ser inaugurada pelo malaio-bote quando visitasse o Concelho, após terminar a guerra, e retomar o seu palácio em Lahane - arredores de Díli, em vez de Liquiçá onde constava estar com residência fixa pelos japoneses inimigos. - Inimigos não, libertadores corrigiu o militar. Estámos cá para vos libertar dos colonialistas portugueses, está a entender-me? Bere Lica confirmara que apenas repetia o que ouvira contar no bazar. - Continua lá, mas sem comentários... - Como ia contando, nessa noite os dois rapazes dormiram num alpendre juntamente com os moradores, à volta de uma fogueira, num local cheio de fumo acre e incomodativo. No dia seguinte, seguiram para o local da pista, um extenso e viçoso coqueiral com uma ravina pelo meio, que teria de ser aterrada, sem máquinas, à unha, como dizia o cabo de sipaios. Assim falava: -Vamos ter muito trabalho! Não se esqueçam da data da inauguração da pista. O trabalho do grupo consiste em escavar a terra branca deste barranco junto à estrada e transportá-la em sacas de folhas de papalapeira ou padiolas de bambus (coisas que sabem fazer) até encher a ravina, esse enorme buraco de mais de vinte metros e que atravessa a futura pista de lado a lado, numa extensão de cinquenta metros. Depois do aterro já podemos avançar com outros trabalhos menos penosos, ouviram! As obras tiveram início e alguém que estivesse do alto da colina podia ver os escravos construindo as célebres pirâmides de Gizé - afirmara alguém conhecedora da História - quais formigas num carreiro caminhando de cá para lá e vice-versa, enchendo as peles de búfalos espalmadas com a terra branca escavada nos barrancos. A terra era despejada no buraco ficando metade a pairar em pó no ar morno e silencioso da quente planície, apenas quebrado pelo cantarolar estridente das cigarras nos ramos das árvores. Bere Mali e Sulang logo se parceberam da dureza do trabalho, muito mais duro que o da Serração donde partiram havia semanas para se alistarem nas colunas negras ou trabalhos nas grutas. Só que estes ou fugiam nas matas ou eram fuzilados. Pensaram em abandonar a obra da pista e rumar a Díli, cidade completamente destruida onde seriam possível algum emprego como mainato em casa de japonês. E dinheiro para as passagens? E os salários por receber ainda? Os dias foram passando lentamente na planície, no meio de nuvens de poeira do barranco branco, pó que lhes enchia os pulmões até a alma. Todos falavam nessa grandiosa obra da pista que até parecia ser encomenda pelo inimigo, mas era obra dos colonialistas para ser inaugurada pelo governador, o malaio-bote. O próprio Bere Mali, certa vez, através das ramadas das buganvílias que enfeitava a varanda da residência do administrador, ouvira parte de um diálogo entre a mãe e a dita autoridade: -O Governo e esses engenheiros de meia-tigela, dos gabinetes da cidade, sabem lá o que andam a fazer nesta terra, agora também ocupada pelos japoneses e australianos e o governo português, impotente, fica encurralado em Liquiçá. Havia tantos lugares melhores para a construção da pista que é necessária - dizia a sábia mulher! A autoridade pousou a caneca de cerveja, limpou o bigode a um lenço branco e respondeu prontamente à mãe, pessoa de provecta idade, um verdadeiro poço de sabedoria. - Tens razão mãezinha, mas quem sou eu para contrariar a magna opinião do malaio-bote - o Governador, - mesmo sequestrado em Liquiçá? Já pensaste na minha possível promoção quando terminar esta guerra que segundo a BBC já está terminada na Europa só faltando o Japão no Pacífico coisa que estará para breve com o poderio americano cada vez mais crescente no Pacífico - assim ouvira na radio roufenha da sala. O comandante Kyoto que vinha ouvindo a estória, sentiu-se afectado pela programada derrota da armada do seu país, noticiado pela BBC nos seus impertinentes noticiários em ondas curtas para todo o Mundo. - Vão ver como vamos sair vitoriosos assim que a esquadra reconstruida e agrupada, auxiliada pela nossa força aérea e pilotos suicidas começarem a actuar. Vão ver...Mas fala-me dessa pista que poderá ter utilização para as nossas tropas juntamente com a de Los Palos já pronta e apenas obstruida por montículos de terra que poderão ser retirados em qualquer momento. A mãe da autoridade, senhora muito sábia continuava: - Tens toda a prenda do Instituto da Junqueira de Lisboa, sou de opinião que com muito trabalho ela poderá ser construida e os aviões aterrarem no meio desse coqueiral. Servirá para os australianos ou Governo colonial de que representas...Confio na tua experiência nesta terra em obras de mais quilate como a da ponte inaugurada e após o banquete comemorativo, a ponte tinha sido levada pela inundação da monção ocorrida nessa mesma tarde. - Mamãe, estás a por a mão na ferida, mais uma vez. Sabes perfeitamente que os cálculos vieram da metrópole e foram validados pelo engenheiro Malkata, um conceituado técnico das Obras Públicas, Agrimensura e Cadastro (OPAC) e, de resto, mãezinha, gostas de pôr as mãos na ferida, quando queres irritar-me com este assunto delicado, quando estamos no meio de uma guerra mundial e que nos toca directamente. O Comandante teve que fazer uma pausa para, com aborrecimento no rosto, ler mais um comunicado das tropas sedeadas na região de Ermera: Dizia a mensagem: "... As nossas tropas sofreram algumas baixas numa emboscada que teve lugar na ponte da Gleno, onde os nativos e tropas australianas abriram fogo de metralhadora e morteiro sobre a nossa viatura militar que ia passar. O inimigo estava escondido nas matas de café e depois do massacre desapareceram na densa floresta. Consta que o chefe timorense chama-se M. Madeira e já se destacara noutras operações contra as nossa tropas... " O comandante já sabia que a derrota do seu país e o abandono da ilha de Timor seria uma questão de datas, pois a invasão da Austrália estava fora de causa, por impossível, não lhe afectando as baixas, fruto inevitável da guerra. Pensava, sim, nos aviões novinhos, desarmados aguardando nas grutas, os combustíveis armazenados, o povo japonês passando privações, e sobretudo, no tesouro de yamashita escondido, cujo paradeiro só ele sabia e cujo montante lhe daria para levar o resto da vida, já nem ligando o patriotismo, imperialismo ou outros "ismos" reinantes e redutores. Dobrou a mensagem e com outro copo de chá verde nas mãos, escutou o resto da estória dos dois rapazes que construiam a pista de terra e não se integraram nas colunas negras que tão má fama tiveram, arastando os japoneses para essa má fama cuja cumplicidade na verdade não tinham, ou dizia não ter... Lá retorquia o administrador colonial: - Mamãe está a pôr a mão na ferida, como já lhe disse. Sabe, perfeitamente que os cálculos vieram de Lisboa e eu só acompanhei a execução do projecto- - Desculpa-me lá, filhote meu, mas como vocês disseram foi coisa de estruturas, deslizamento de solos, fundações pouco concretizadas, etc... Palavras... Vocês não tomaram em consideração a opinião do cabo de sipaios Mariano que vos indicou a altura das águas, naquele ano passado de 1940. - Esse Mariano sabe lá o que diz... - Ele só disse que as chuvas reponham tudo como dantes, isto é, a ribeira a correr por entre as pedras... Bere Mali deixara a família , mãe e filho autoridade, naquele diálogo. O dia para o recebimento dos salários do mês nunca chegava.Quando algum trabalhador se deslocava à secretaria para se informar do pagamento on questionava o capataz, a resposta era invariavelmente a mesma" estamos em guerra", a Fazenda não envia dinheiro, daqui a uma semana". Adiamentos sobre adiamentos e os desgraçados dos trabalhadores sem uma pataca nos bolsos. - Bem, Bere Lica preciso de uma farda bem passada, poia amanhã vou a Bobonaro ver as tropas e depois, chamo-te para o resto dessa lenga-lenga sobre a pista dos colonialistas. Entretanto, o comandante, sintonizando a radio de campanha, escutava as notícias do dia, por entre silvos e apitos de estática de uma noite de trovoada: A guerra no Pacífico A partir de 1940, o Japão tentou aumentar a sua influência no Sudoeste Asiático e no Pacífico. O governo dos Estados Unidos da América, indignado, impôs sanções económicas ao Japão. Como represália, a 7 de Dezembro de 1941, a aviação japonesa atacou Pearl Harbor, a maior base norte-americana do Pacífico. Em apenas duas horas, os pilotos japoneses conseguiram inutilizar todos os navios ancorados no porto. A guerra no Pacífico tinha começado. Ataques kamikazes Pilotos kamikaze japoneses levaram a cabo corajosas missões suicidas contra os navios de guerra inimigos - em especial à armada dos Estados Unidos. Estas missões suicidas levadas a cabo eram muito eficazes. A força aérea imperial japonesa chegou a desenvolver aviões especiais para estas missões suicidas, o seu principal objectivo era infligir enormes baixas nas forças Aliadas de modo a estes não invadirem a ilha principal do Japão. Kyoto ficara satisfeito com o que ouvira e pedira a um soldado que lhe trouxesse uma garrafa de "saqué" para comemorar uma boa nova. O soldado que era natural da perfeitura de Shizuoka, perguntara ao comandante se aquela zona não lhe fazia relembrar algo do Japão e até o Ramelau parecia o Fuji Hama sagrado, mas sem o capacete de neve. Até havia laranjeiras carregadas de laranjas maduras e pássaros multicores como lá. O sol punha-se por detrás das arvores de madre-del-cacau e um reflexo erverdeado vinha até a varanda vigiada por sentinelas armadas mirando o horizonte não fosse o quartel atacado pelo inimigo muito moralizado. A Bere Lica que venha contar-me o resto da estória da pista de terra dos colonialistas: Adiamentos sobre adiamentos e os desgraçados dos trabalhadores sem uma pataca nos bolsos. Entretanto, - contava ela - a data para a inauguração da pista aproximava-se a olhos vistos e houve a necessidade de admitir mais um turno nocturno para trabalhar com a preciosa claridade da Lua , caminhando para a fase da lua cheia e alumiando a terra branca, salpicada de sombras fantasmagóricas das frondosas árvores de teca do caminho e altas palmeiras sacudidas ao vento. Os dois rapazes, que necessitavam de dinheiro para iniciarem as vidas em Díli e não queriam alistar-se nas famigeradas colunas negras, deram os nomes para os turnos da noite também. Estavam quase convencidos em viajar para a acpital quando o cabo Mariano veio satisfeito, batendo com o chicotinho nas calças de trabalho salpicado pelo poeira esbranquiçada dizer-lhe que o dinheiro tinha chegado da Fazenda e que ia fazer os pagamentos dos salários naquele dia, mas á meia-noite em ponto. A alegria foi geral. Nos rostos empoeirados daqueles trabalhadores de cabeças suadas e tisnadas pela sujidade via-se uma nítida satisfação...Fez-se silêncio na mata. As folhas secas ouviam-se estalando no topo das agitadas palmeiras tombando os cocos para o chão com um baque cavo: é agora que vou acabar de pagar o meu barlaque e levar a minha mulher para casa. Um outro trabalhador, que tinha a pá espetada na branca terra do barranco, coçava a cabeça sem saber como iria gastar "aquela fortuna", trinta dias vezes uma pataca, seis escudos, menos que uma libra de cavalinho em ouro que os obreiros dos túneis de Venilale ganhavam por dia de trabalho, mas que receberam apenas uma bala de cobre e chumbo nos terrenos salgados das Lagoas de Taci Tolo, segundo relato de testemunhas oculares do sucedido. As catatuas cantavam nas ramadas das árvores do caminho. O sipaio apitara três vezes, qual árbitro de um desafio de futebol... - Tomem atenção! Silêncio, por favor... O pagamento vai ser feito amanhã, à porta da Secretaria, por mim, cabo Mariano, à meia-noite em ponto, para aproveitar a clariadade do luar. Mas silêncio, e muita atenção! Só chamarei pelo nome de trabalhador, uma vez, e quem não responder à chamada só virá a receber na próxima Lua cheia, isto é, para o mês que vem, quando chegar a nova ordem de pagamentos da Fazenda. Bere Mali e o companheiro não queriam acreditar no que ouviram, mas o cabo Mariano não era para brincadeiras. Chegara o dia, ou aliás, a noite para os esperados pagamentos. Os dois amigos foram lavar-se na ribeira próxima, vestiram-se de limpo e aguardaram no cacimbo da rua, ao lado da Secretaria da administração colonial portuguesa. Um deles falou: - Um dia essa exploração do nosso povo acabará nem que a gente fique sob a ocupação japonesa. Havemos de ser livres e cuidar do nosso destino. O Sulang, um misto de china e timor, abanava a cabeça querendo dizer-lhe para ter cuidado com a língua. A noite descera sobre a planície e as folhas dos coqueiros destacavam num lusco-fusco de um início da noite estrelada. A Lua surgira redonda por detrás das escuras copas das arequeiras e os grilos abandonavam os buracos escuros. Ao longe, os vultos esguios das timorenses regressando às aus povoações, após venderem a copra trazida das planícies ou cordas de peixe seco acompanhado de bandos de moscas varejeiras. O luar foi violando lentamente a planície deixando sombras na maldita terra branca onde estava a ser construida a pista e barrancos cada vez mais carcomidos pelas pás e picaretas dos trabalhadores agora em bicha para receber os magros e atrasados salários. O Comandante Kyoto interrompera a audição do conto para indagar dessa forma invulgar dos colonialistas de pagar à luz do luar, coisa por ele nunca vista em nenhuma das ilhas do Pacífico por onde andara em várias campanhas militares. Entretanto, eles só pagavam com balas. De ouvidos numa telefonia de campanha, escutava as últimas da BBC, em ondas curtas, sobre o andamento da guerra : Batalha de Guadalcanal: "...Os japoneses ocuparam o Solomons em Janeiro de 1942. A Marinha norte-americana aterrisou em Guadalcanal na primeira das batalhas anfibias contra posições japonesas seguras no Pacífico, em 7 de Agosto. A Marinha obteve e conquistou o Campo Henderson na ilha em face a solo amargo, mar, e ataques de ar dos japoneses. Continuaram lutando nas selvas de Guadalcanal até 9 de Fevereiro de 1943, quando o exército norte-americano e Forças Armadas tomaram a ilha controlada pelos japoneses..." Mais uma vez Kyoto sentira que o fim do império sonhado estava para breve. Até pensara um sacar da pistola Parabellum e estoirar os miolos mas a ideia do tesouro e de um resto de vida feliz numa ilha do Pacífico já sua conhecida, após apossar-se do tesouro e levá-lo para fora de Timor, demovia-o de um tão transloucado acto em honra a uma Pátria que já não sentia na alma nem amava e um Buda que os abandora no momento em que mais precisavam dele. À porta da Secretaria, o sipaio Mariano, o cabo de serviço, e um punhado de trabalhadores que compareceu àquela hora da noite incrédulos quanto ao pagamento. O sipaio trazia numa das mãos uma amarrotada folha de papel azul de trinta e cinco linhas com ao nomes dos trabalhadores, dias trabalhados e as quantias a receber, noutra mão o inseparável chicotinho de couro. Compôs o bivaque na cabeça, desenrolou o papel enfiando o elástico no pulso esquerdo e deu início à chamada. Era meia-noite de Lua cheia de mês de Junho qualquer. Começara a chamada: - Mau Quinta? - Pronto...- cento e vinte escudos - vinte patacas... - Lequi Bau? - Lequi Bau? - insistiu o sipaio! - Não está - respondeu alguém por ele, lá do fundo da bicha. - Mau Bere I? - Pronto! - Cento e oitenta escudos, trinta patacas... - Sulang? - Foi agora mesmo fazer asessidades no mato. Bere Mali foi a correr chamar pelo amigo que veio correndo, com respiração afogueada, apertando as calças de ganga: - Pronto, já cá estou... - Cento e vinte escudos - vinte patacas. O cabo Mariano continuou a chamada, à qual a maioria dos trabalhadores não respondeu, pela hora tardia do pagamento, ficando sem os salários para fazer face à vida, numa época de guerra e privações de toda a ordem. O cabo Mariano enrolou o papel, atou-o com um elástico que retirara do braço esquerdo. Depois ecendeu um cigarro de palha de milho lançou uma baforada para o ar e falou aos trabalhadores: - Os faltosos ficarão para a próxima chamada quando houver outra Lua cheia, como já vos avisara, lá em baixo, nas obras da pista. O comandante Kyoto ouvia a estória da pista, mas na mente uma mensagem cifrada que recebera na véspera em que tinha e mudar o seu quartel general para a zona de Ermera, pois os focos de guerrilha vinham crescendo da Gleno e Fatuc Besse, zonas de grande protecção devido às matas de café protegidas pelas frondosas árvores madre-del-cacau e muitos regatos correndo nas profundezas dos valados. Enquanto contemplava a sentinela tremelicando de frio vindo do Ramelau, ligou a rádio de campanha para colher as ultimas novidades da guerra na Europa: Entre outras notícias "...que o conflito acabara por envolver a maior parte dos países do mundo (participaram nações dos cinco continentes). Em algumas nações (como a França e a Yugoslávia), a segunda guerra mundial provocara confrontos internos entre partidários de um de outro grupo..." Entretanto, o comandante estava disposto a ouvir o resto da estória da pista: - Senhor - implorava um recém-chegado: cheguei atrasado, como está a ver não pude andar mais depressa por causa da ferida numa das pernas. Tenho esta perna doente desder o dia em que a pedra daquele barranco me apanhou nas obras da pista... O sipaio mariano, impávido e sereno, foi-lhe dizendo: Já fechei a caixa do dinheiro e guardei a chava lá dentre na Secretaria...Você não me viu sair de lá. Agora, só na próxima Lua cheia... Todos olharam a figura hirta do cabo, impávido e sereno., alheio ao sofrimento do seu semelhante e sem compreender onde chergava a maldade do bicho-homem, quando munido de um autoridade, em qualquer rincão desse planeta chamado Terra.. - É assim o Mundo ! - retorquiu alguém com sabedoria do meio das buganvílias floridas de encarnado. - Senhor, senhor, espera um momento e explico-me melhor! A minha gente lá de casa está à espera desse dinheiro para comprar néli para cozinhar e o china já não dá fiado. Ontém, comemos farinha de tronco da palapeira molhada em água - comida dos tempos da fome negra... - O problema é seu! Que tivesse chegado a tempo e a horas... Bere Mali (um dos que quisera alistar-se nas Colunas Negras), abeirou-se do catuas, embrulhado numa manta rota e disse-lhe: - Sinto muito pena de você e da sua família. Qual o seu nome: - Mau Bere III... - Sim foi chamdo no final da lista, após o Mau Bere II... O catuas soluçava e enxugava os olhos avermelhados com as costas das mãos gretadas, as mesmas que, durante meses, cavara e enchera os cestos de terra para o aterro da vala da pista. A Lua estava na vertical da vila. As coberturas de zinco das poucas casas viam-se mais brilhantes. Os três companheiros da desgraça, sentados nos muros da Secretaria do posto, ouviam os grilos batucando nas fendas doas pedras e os cucos cantando tristemente nas ramadas das árvores do caminho. - Olha - disse o Bere Mali - eu e o meu amigo estivemos a combinar uma coisa...Queriamos ajudá-lo, se aceitar a nossa oferta, claro está...Um dos nossos salários fica para você! Somos solteiros e sem familia a cargo. São, apenas, vinte patacas (cento e vinte escudos). É pouco, mas sempre é uma ajuda dada de coração para você não regressar à sua casa de mãos a anabar e os filhos com fome na barriga... O catuas, meio embrulhado na manta rota para se defender do cacimbo da meia-noite no mato, destapou a face sulcada de lágrimas e olhou oe desconhecidos nos olhos: Humildemente, estendeu-lhe as mãos gretadas pela picareta e enxada e guardou as vinte patacas numa sacola de folhas de palapeira. A Lua iluminava ainda as chapas de zinco das casas da vila adormecida na solidão do cacimbo. Choravam...A Lua cada vez mais redonda escondera-se por detrás de uma espessa nuvem cinzenta vinda do mar, como que envergonhada pela maldade do bicho-homem personificada na figura do cabo Mariano. Com uma voz comovida e fraca, o catuas assim lhes falou: - Obrigado, meus filhos. Um dia Maromac vos abençoará e encontrarão um emprego melhor... As nuvens, quase por milagre, deixaram de esconder a Lua cheia. Uma estranha claridade invadiu a planície silenciosa do Sul da ilha de timor, naquela dia triste, cinzento, em que a maldade humana atingira o seu apogeu... Ao comandante Kyoto, certamente, lhe vireram à mente os atropelos e as maldades feitas aos timorenses, obrigados a trabalhar na abertura das grutas com a promessa das libras em ouro cavalinho e serem depois gratificados com balas de chumbo nas margens das lagoas de Taci Tolo, arredores de Díli. Capítulo IV 6 de Agosto de 1945 Noticiário da BBC: Alguns dias depois (6 de agosto de 1945), uma bomba atômica baseada na fissão do urânio-235, batizada de 'Little Boy' (pequeno menino), foi detonada sobre a cidade japonesa de Hiroshima. Três dias depois, uma outra bomba atômica desta vez baseada na fissão do plutônio-239, batizada de 'Fat Man' (homem gordo), explodiria sobre Nagasáqui. Em 14 de agosto de 1945 os japoneses renderam-se. Foi através dessa lamentável demonstração que o mundo tomou conhecimento da enorme quantidade de energia que se encontra armazenada no núcleo. A primeira bomba atômica, testada em 16 de julho de 1945, possuía 12 quilotons. Por definição, 1 quiloton equivale ao poder de mil toneladas de dinamite. Cada uma das bombas detonadas no Japão correspondia a cerca de 20 quilotons. Aproximadamente 71 mil pessoas foram mortas instantaneamente em Hiroshima. As mortes nos cinco anos subseqüentes, devidas à exposição à radiação, são estimadas em 200 mil. Quase 98% das construções de Hiroshima foram destruídas ou seriamente danificadas. Em Nagasáqui, algo em torno de 74 mil pessoas morreram na explosão, que arrasou 47% da cidade. Após os dois desastres, Japão sentiu-se vencido e assinou a paz. A Segunda Guerra Mundial teve seu fim anunciado em 2 de Setembro de 1945, com a assinatura da acta de rendição incondicional do Japão, a bordo do couraçado Missouri. Capitulo V 3 de Setembro de 1945 O vaso de guerra Kimodoro chegara ao porto de Díli e nele embarcou o resto da tropa japonesa sedeada em Timor. Soube-se, depois que o couraçado se afundou no Pacífico por causa de tempestade Miron ou mina flutuante e com ele seguiu para o fundo do Pacífico o segredo do Tesouro de Yamashita, enterrado algures em Timor, à espera de um eventual achador ou a descoberta de um mapa num canudo de bambu nas cavernas do Matan Bia. EPÍLOGO: o autor foi administrador dos postos de Fohorém e Fatuc Lulic entre 1968 e 1971 e, mais tarde, administrador do concelho de Aileu, entre outros. Frente à minha residência, fica o Monumento aos Massacrados de Aileu, a que me referi, e os nomes dos mártires cravados na pedra, para sempre. O leitor poderá lê-los! Nos fins das tardes, ao pôr do Sol, sentava-me nas tranqueiras (muralhas) e relembrava a História que vos deixo. Em Fohorém, encontrei, em 1968, a urna com os restos mortais do chefe de posto português de Fatuc Lulic, aguardando um eventual translado para a familia em Portugal, o que, na data, ainda não tinha acontecido. Olhando a urna, então guardada no posto telefónico do Posto, (ainda lá deve estar - 2005), estremecia com os gritos ululantes das Colunas Negras que mancharam de sangue esse matirizado TIMOR e seu povo, ilha onde nasceram dois dos meus filhos, Rui Gominho e Luis Gominho, quando a mãe, minha mulher, era professora. O autor Adriano Gominho adriano.gominho@sapo.pt FIM, Lisboa, 15 de Setembro de 2005 O autor: Adriano Gominho adriano.gominho@sapo.pt Glossário para este livro: Tétum - Português Árvore lúlic- árvore sagrada Beiro - pequena embarcação nativa Catuas - idoso Cuda - Cavalo Dato - Chefe tradicional Feto - Mulher Garuda - Divindade indonésia Lábaric - Rapaz Lalaice- depressa Malai-bote - Chefe máximo Matandoc- Feiticeiro Néli - Arroz por descascar Palapas - casa de colmo, palhotas Palavão - variedade de eucalipto Sassati - espetada de carne Surat - Bilhete Tuac- aguardente Tuassaba - vinho de palmeira Tebedai - dança nativa NOTAS BIOGRÁFICAS (do autor) ADRIANO DE ALMEIDA GOMINHO, nascido na ilha de São Nicolau, em Cabo Verde, a 15.9.1940; concluiu o curso complementar, antigo 7º ano, no liceu Gil Eanes, em São Vicente; aspirante administrativo na ilha do Fogo, alferes e tenente milicianos em Timor (1963 a 1968), após um curso em Mafra; administrador de posto do quadro administrativo, adjunto de administrador de Concelho, tendo administrado os de Aileu e Viqueque, em Timor e, por inerência, Presidente dos mesmos municípios e Juiz de Julgados Municipais. Regressou a Portugal em 1975, dois dias antes do início da gerra civil no território. Em Portugal exerceu, desde então, as funções de chefe de secção, e posteriormente, as de chefe da Repartição de Pessoal da Aviação Civil. Em 1993, deixou o funcionalismo público, por motivos de saúde, tendo-se aposentado, dedicando-se, actualmente, a escrever sobre Cabo Verde e Timor, focando os diversos problemas socio-económicos do seu conhecimento. Frequenta, também, o III ano do Curso de Direito, em Lisboa, embora já reformado e com 65 anos de idade. OBRAS DO AUTOR QUE ESTIVERAM OU AINDA ESTÃO NA INTERNET , A BEM DA CULTURA PARA TODOS 1 - Timor, Do Paraíso Perdido à Terra dos “Mauberes” 2 - Gotas dos beirais (crónicas de Lisboa) 3 - Na Clausura das ilhas - (literatura cabo-verdiana) 4 - Em Busca do Taci-Feto (romance de ficção de Timor) 5 - Terra Longe (literatura cabo-verdiana - roças de S. Tomé) 6 - Vender Pastel Para Comprar Papel (literatura cabo-ver- diana) 7 Gaivotas que voam ( narrativa sobre os Retornados) 8 Uma Pedrada no Coilão (outra versão de Timor) 9 Homem de rostos queimados (Poemas, Cabo Verde) 10 Mar é Largo, Mundo ê Grande (narrativa poetica) 11 Recordai (Tomo I, poemas Cabo Verde) 12 Dar nome para S. Tomé ( peça de teatro) 13 Poemas que vieram à rede (colectânea) 14 Timor, amor e uma palapa (poesia) 15 Dilúvio segundo Simião (poemas sobre cheias em Moçambique) 16 Entre-mar-e-céu ( 20 sonetos a Cabo Verde) 17 Jonkoping - A cidade das caixinhas de fósforos (poesia Estocolmo) 18 Sete Cedros (poemas sobre o Nordeste Transmontano) 19 Luneta Graduada I (poemas sobre o Mundo) 20 Luneta Graduada II (poemas sobre o mundo) 21 Luneta Graduada III (poemas sobre o Mundo) 22 Sopa com garfo (poemas sobre Lisboa-Rossio) 23 Cais das Colunas (poemas sobre Lisboa) 24 Olhai os Cardos do Campo ( poesia) - 2003 25 Tesouro de Yamashita (ficcção) Timor 2005 Lisboa, 26 de Agosto de 2007 adriano.gominho@sapo.pt
|